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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Eleições 2014: Um basta à arrogância da elite brasileira

Acesso à educação: direito de todos
(Imagem: Gadgetdude via Flickr)
Este post não é sobre política, mas sobre pessoas. Não costumo abrir voto para não gerar atritos com amigos que têm visões diferentes. Nestas eleições, no entanto, por não ter podido votar (perdi o prazo para transferir meu título para o Canadá, onde vim morar), acabei revelando minhas tendências. Achei válido após ver o excesso de incompreensão, agressividade e intolerância de todos os lados, principalmente entre eleitores do PT e PSDB.

Nesta semana, o que li, num grupo do Facebook reunindo brasileiros que moram em Vancouver, me deixou estarrecida. Eleitores do PSDB, ou anti-PT, não sei ao certo, usaram termos preconceituosos e agressivos ao se referirem a quem recebe algum tipo de assistência do governo. Atacaram inclusive beneficiários do programa Ciências sem Fronteiras (CsF).

Conheci várias pessoas que ganharam essa bolsa para estudar no exterior. Estão cursando parte da faculdade delas aqui e, ao final do prazo, voltarão para terminar a graduação no Brasil. Uma já me confessou que nunca na vida pensou que teria a oportunidade de estudar em outro país, outra me disse que viajou de avião pela primeira vez pra vir pra cá.

Dando uma rápida olhada na timeline dessa galerinha, é nítido como suas famílias estão orgulhosas de acompanhar do Brasil a jornada de seus herdeiros na busca por conhecimento—e por um futuro melhor. Vejo uma moçada jovem que se diverte sim, mas também se dedica pra dar sequência a seus cursos quando voltarem ao Brasil e, finalmente, receberem seus canudos.

Alguns nem sabiam inglês suficientemente bem para encarar as matérias acadêmicas e cortaram um dobrado nas aulas de inglês para passar à etapa seguinte. Uns ficaram apreensivos; outros, quase desesperados. Mas o tempo prova que a ralação de todos eles vem dando resultado.
 
Desculpem, eleitores do PSDB. Pra mim, isso não tem preço. Escrevo isso com lágrimas nos olhos. Não interessa se o benefício em questão é pra mim. Eu não preciso. Mas pessoas estão tendo a oportunidade de um futuro brilhante. Essa chance nunca havia sido oferecida a famílias que não têm recursos para bancar o estudo de seus filhos no exterior.

Não aceito que um playboy qualquer chegue numa rede social, sem foto, sem mostrar a cara, e diga que a comunidade do Facebook de que ele participa (a de estudantes morando em Vancouver) teve seu nível rebaixado com os beneficiários do CsF. Esse rapaz se auto-intitula uma pessoa de bem, que não vai "pagar imposto para bancar uma CORJA" que recebe miséria do governo. Diz ainda que eles deveriam aprender a batalhar por seus próprios bens porque "a mamata uma hora vai acabar". Eu, como não-beneficiária desse programa, digo: é esse tipo de brasileiro que nenhum país do mundo quer receber. Nem o Brasil deveria ter.

Alguns brasileiros viajam ao exterior ou decidem imigrar porque têm dinheiro e educação formal, mas não têm educação de berço nem cultura suficientes para compreender o básico. Muitos vêm ao Canadá, mas não entendem as políticas públicas. Não entendem porque o país funciona bem em áreas onde o Brasil não funciona (e tampouco sabem que o Canadá não é perfeito).

Há pessoas tão mal informadas que dizem não ver a hora de morar no país do Harper, mas não sabem que o primeiro-ministro canadense não é bem quisto por uma parte significativa da população. Basta conversar com as pessoas nas ruas. A desinformação de alguns interessados em vir pro Canadá é tamanha que dá pena. Mas adoram propagar o "vou-me embora desta terra" ao se referirem ao Brasil. Acho que já vi alguém assim na melhor novela à que assisti, Vale Tudo. Mas cultura geral, infelizmente, não se impõe.

Um professor do ginásio, com quem mantenho contato, me disse que adotou um termo para esse público: "classe média esquisita". Mas acho que a elite é bem mais esquisita. Não querem repartir o pão, pois precisam de subordinados. Não sabem viver sem empregada doméstica, babá, motorista, jardineiro ou qualquer outro funcionário que faça o serviço que não querem fazer. Eu, como sei lavar, passar, cozinhar (ainda que não seja a melhor comida do mundo!), não tenho problema algum em fazer o serviço eu mesma. Será que é tão difícil entender que um país só cresce quando todos têm acesso à educação e a tudo que vem junto?

Acho que essa galera — que fala tanto em vir morar no exterior, em sair do Brasil para ter vida digna, em viver sob um governo honesto e em conviver com gente mais educada e menos ignorante — deveria aprender uma coisa: no exterior, quase ninguém tem empregados em casa. Aqui, todo mundo tem dupla jornada, meu camarada. Marido lava e passa roupa, mulher cuida do bebê (ou vice-versa). Os dois cozinham, aspiram, varrem. Ah, marido e marido também. Esposa e esposa idem (o playboy em questão deve deixar, se tiver, sua homofobia além da fronteira porque não vai pegar bem por aqui). Então, vai aprendendo...


Diferentemente de alguns, não acho que foi um partido só que despertou esse rancor todo. Foram a disputa entre Dilma e Aécio e a responsabilidade de ambos e da imprensa brasileira, que me desaponta a cada dia (não que eu esteja satisfeita com o que vejo no resto do mundo). Aécio parece ter mais poder de convencimento do que Serra. Já Dilma não tem a admiração que Lula sempre teve e, de quebra, sua rejeição é alta. Aécio tem excelente oratória, mas Dilma é aprendiz — e o PT abusou dos escândalos (como outros partidos já fizeram, mas nunca foram pegos).

O PT não é o único partido que tem que se depurar. Mas como governo e por ter conseguido depois de tantos anos chegar ao poder, com Lula, deveria sim ter dado o exemplo. Falhou grosseiramente. Críticas à parte, ainda acho que o governo do PT com Lula e Dilma fizeram mais pelos mais carentes do que o PSDB havia feito — e entendo que é por isso que a maioria reelegeu Dilma. Essa maioria precisa comer também e, como vivemos numa democracia, essa maioria deve ser respeitada.

Agora, o que os partidos não podem é deixar a população se dividir, como aconteceu neste período eleitoral. Isso não é bom pra ninguém. Dilma e sua equipe terão que botar a casa em ordem se quiserem ter um governo razoavelmente tranquilo. Tenho esperança de que usem o susto de quase perder a eleição pra melhorar consideravelmente o que fizeram até agora (ou fazer o que ainda não fizeram). Mas se não fizerem, devemos cobrar.

A quem votou no PSDB e me conhece pessoalmente, desculpe o desabafo. Sei que você entende meu ponto de vista. Se apenas lê este post e não me conhece, aceito discordância, mas em hipótese alguma seu desrespeito ou falta de educação. Cheguei a meu limite com agressividade. Repito: nada contra você, que pensa diferente de mim; nada contra seus ideais. Só não consigo aceitar passivamente esse ar de superioridade da elite brasileira em relação às camadas mais pobres da sociedade apenas porque eu, Glauce, não preciso de assistência social.

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