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segunda-feira, 2 de junho de 2014

Raça, identidade e estereótipo

Chimamanda Ngozi Adichie
(Image Rollins College via Flickr)
Faz algum tempo que a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (em inglês) apareceu. Eu não sabia porque estou atrasada.

Há alguns meses, assisti a sua TEDxEuston de 2013, We should all be feminists (Todos deveríamos ser feministas). Depois, The danger of a single story (O perigo de uma história única). Vista mais de seis milhões de vezes, essa TEDTalk de 2009 discute os riscos do estereótipo. Adichie diz, "o problema com estereótipos não é que sejam falsos, mas incompletos. Eles tornam uma história a única história".

Nesta TEDTalk, a escritora conta que sempre leu livros americanos ou britânicos quando era criança. Por um tempo, estava convencida de que livros deveriam ter estrangeiros como personagens centrais e abordar coisas com as quais ela não tivesse qualquer identificação. Segundo Adichie, isso apenas mudou quando ela descobriu a literatura africana. E é aí que eu entro.

Quando assisti a sua primeira TED Talk, fiquei curiosa. Ao assistir à segunda, inspirada. Eu tinha que ler seus livros. Adichie entrou na minha vida e eu me senti envergonhada por não ter lembrança alguma de escritores africanos. Então, quando depois do meu aniversário, em abril, alguns amigos me deram vale-livros, Americanah, seu livro mais recente, foi o primeiro que eu retirei da prateleira.

Americanah conta a história de Ifemelu, uma nigeriana jovem, inteligente e espirituosa que vai para os Estados Unidos fazer faculdade. Ela deixa pra trás o namorado Obinze, com a promessa de terem um plano juntos. Morando fora pela primeira vez, Ifemelu tem que lidar com o fato de que nos EUA ela não é mais uma moça nigeriana; ela é uma moça negra.

Este livro fala de raça, identidade e estereótipo de um modo que eu jamais havia imaginado. Como uma estudante estrangeira no Canadá por quase dois anos e recém-graduada, muitos dos sentimentos que vivi neste período fazem absoluto sentido enquanto viro as páginas do livro.

Há não-negros, dentro e fora do Brasil, que insistem em dizer "morenos" ao se referir a nós, pessoas com "a pele da cor do chocolate", como Adichie se define. Eles se sentem desconfortáveis ao usar a palavra "negros", como se fossem nos ofender.

Americanah, by Chimamanda Ngozi Adichie
Americanah, o livro mais recente
de Adichie (Reprodução)
Em um momento do livro, Ifemelu, que trabalha como babá, percebe que sua patroa, uma mulher branca, usava a palavra "lindo" para se referir a mulheres totalmente normais em termos estéticos. Em comum, todas negras. Quando perguntada se uma moça na capa da revista não era maravilhosa, Ifemelu responde "Não, não é... Nem toda pessoa negra é linda". As duas se tornaram amigas.

Não terminei o livro ainda, mas em suas quase 600 páginas, há centenas de frases inspiradoras que me fizeram botar o livro do lado por um tempo e refletir sobre o que eu havia lido. Americanah não é entretenimento apenas. É uma reflexão profunda sobre o ser humano.

Veja este trecho (tradução minha): “Querido negro não-americano, quando você decide vir para os Estados Unidos, você se torna negro. Pare de discutir. Pare de dizer 'eu sou jamaicano' or 'eu sou ganense'. Os Estados Unidos não se importam. E se você não fosse 'negro' em seu país de origem? Você está nos Estados Unidos agora."

Adichie também escreve, "Se você é uma mulher, por favor não fale tudo o que vem à cabeça como você fazia em seu país de origem. Porque, nos Estados Unidos, mulheres negras de gênio forte são ASSUSTADORAS. E se você for um homem, seja supergentil, nunca fique muito agitado ou alguém vai pensar que você está pronto para sacar um revólver."

O trecho a seguir é o que me fez pensar mais profundamente: “Se você está contando a um não-negro algo racista que aconteceu com você, faça um esforço para não parecer amargo. Não reclame. Perdoe...Negros não devem mostrar raiva em relação ao racismo se quiserem ter a simpatia de alguém."

Americanah tem também momentos leves. Adichie é uma escritora tão talentosa que torna possível o riso em meio a uma discussão tão profunda. Gosto ainda de como ela escreve sobre o amor. O livro entrou, sem dúvida, para minha lista de cabeceira. Não havia algo melhor para ler neste momento da minha vida. Afinal, estou na América do Norte.

OBS: TED é uma organização não-governamental focada em divulgar ideias que valem a pena. Começou numa conferência de quatro dias na Califórnia há 25 anos. As TEDTalks são as palestras e estão disponíveis no site da ONG. Para saber mais, clique aqui.

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