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segunda-feira, 28 de abril de 2014

Eu como bananas!

Imagem: Jose Alves via Flicker
— Macaca!—disse meu colega de classe.

Tínhamos mais ou menos a mesma idade. Acho que nove. Eu nunca contei isso a nossos amigos em comum. Eu tive uma mãe maravilhosa que, desde cedo, me ensinou regras de ouro. Um delas foi nunca expor as pessoas ao constrangimento público. Eu sabia que, se nossos amigos soubessem o que ele me disse, ele os perderia pra sempre.

A segunda vez aconteceu numa escola de inglês. Eu tinha 10 e seria a mais nova na sala. A professora sugeriu que minha mãe aguardasse ao menos um ano pra me matricular porque seria difícil acompanhar o ritmo da turma. Os outros alunos tinham um ou dois anos a mais e já aprendiam inglês no ginásio. Eu acabei sendo aceita e me tornei a aluna nota 10. Um dia, um garoto, sentado a meu lado, disse aquela palavra de novo—alto o suficiente pra eu ouvir e baixo pra ninguém mais.

Em ambas as situações, conversei com minha mãe. Não queria choramingar, mas compartilhar com ela o que acontecia na minha vida. Não lembro ao certo quando conversamos pela primeira vez sobre racismo. Mas aprendi cedo que isso não era história da carochinha.

— Você tem que ser o melhor que você pode, independentemente do que você escolher fazer na vida—disse minha mãe mais de uma vez.

Entendi que precisava ser sábia para me proteger. Não deveria engolir sapo. Não deveria aceitar desrespeito. Não deveria esperar que todos me tratassem como eu merecia. Há seres humanos vivendo em diferentes estágios de suas existências e alguns não entendem o significado de igualdade e respeito. Mas ninguém é melhor do que ninguém. Por isso, fui educada para ser o melhor que posso, sem me preocupar em competir com quem está a meu redor.

Nunca tolerei racismo, mas quando criança não estava pronta para enfrentá-lo. Já adulta nunca passei por situações semelhantes. Ter me tornado uma pessoa que não tem medo de dizer o que pensa ajuda, mas não me protege completamente. O que houve com Daniel Alves ontem na Espanha (notícia no mundo todo, inclusive aqui em Vancouver) reforça o fato de que adultos não estão imunes.

Quando o racismo é aberto, como foi com o jogador, a vítima tem condições de reagir. A reação de Alves—pegar do chão a banana atirada a ele e comê-la—lavou minha alma porque ele não desceu ao nível do agressor. Metaforicamente, ele calou o torcedor, ao mastigar e engolir a banana (e o ataque).

Macacos são mais inteligentes do que pessoas racistas. Se eu tiver que escolher quem quero ser, vou continuar comendo bananas.

OBS: este post foi escrito originalmente no meu blog em inglês That's All About, mas traduzi pra este blog (que, espero, voltará com força total agora que terminei minha faculdade no Canadá). Creio que escrever algo sobre racismo em inglês tem mais peso porque mais gente vai ler.

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