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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A (difícil) arte de ser mulher


Fernanda Lima and her husband Rodrigo Hilbert
(Photo: http://www.marieclaire.fr/
,coupe-du-monde-de-football-2014-
censure-fernanda-lima,706354.asp
)
O tempo passou, mas não é tarde para expressar minha opinião sobre a polêmica envolvendo Fernanda Lima no sorteio da Copa do Mundo há alguns dias. O motivo? Os direitos da mulher.


Antes de avançar na discussão, quero deixar um ponto claro: uma das minhas melhores amigas é iraniana, a quem adoro de coração. Cada linha escrita aqui leva em consideração o impacto das palavras nela, sabendo que não quero perder a amizade e o respeito que ela tem por mim.

Os ataques online sofridos pela modelo brasileira traduzem claramente as leis de ação e reação. Como o vestido que ela usou foi considerado inadequado pela emissora de tevê iraniana (que fazia o repasse do sinal para o país e tirou o sorteio do ar), um grupo de pessoas que não pôde assistir desrespeitou Fernanda, postando mensagens ofensivas em sua página oficial no Facebook.

Sinto muito por aqueles que foram criados em países onde a cultura é muito diferente da que temos no Brasil e, portanto, não entendem como nós, mulheres, nos vestimos. O vestido era sexy? Desculpe, mas nós gostamos assim. O problema é que alguns têm dificuldade em diferenciar sensualidade e pornografia.

Se o tipo de vestido que a modelo usou não é permitido no Irã pelas questões religiosa e cultural, quem sou eu para dizer que está errado? Se a TV iraniana interrompeu a transmissão em razão do decote, tampouco é da minha conta. Mas como mulher, não aceito que iranianos ataquem Fernanda como reação ao que consideram errado. Para nós, brasileiros, não é. Que reclamem com o governo deles.

A ditadura permeou o Brasil. Felizmente passou e, agora, somos livres. Nós, mulheres, também. Vamos à universidade e lutamos por espaço no mercado de trabalho. Com estudo, competimos de igual para igual com os homens. Quando adultas, buscamos independência para não estarmos sujeitas às ordens de marido ou pai. A maioria de nós não precisa pedir permissão, muito menos quanto ao vestuário.

Fernanda não quis desrespeitar ninguém. Ela não foi ao Irã mostrar sua sensualidade. Ela estava na Bahia, em solo tupiniquim. O fato de ela estar num programa de tevê não justifica todo esse frenesi. Quando eu não gosto do que vejo na televisão, mudo o canal. Isso é direito de escolha.

Quando fui à Turquia, sabendo que é um país muçulmano, prestei atenção ao que vestir. Estava preocupada em respeitar os costumes locais porque estava em solo turco. Minhas amigas, por exemplo, não cobriam a cabeça nem ao entrar em mesquitas. Segundo elas, em geral para pessoas jovens, não há esse rigor. Mas elas sempre vestiam blusas com mangas. Então, nem botei na mala alcinhas, algo curto ou transparente. Mas não teria mudado meu jeito de vestir caso minhas amigas tivessem ido ao Brasil porque, em meu país, nós temos mais liberdade com o vestuário. Homens não têm que se manifestar.

No caso do sorteio da Copa, se houvesse um padrão de roupa adotado pela Fifa, Fernanda teria sido avisada. Se ela não recebeu recomendação especial é porque provavelmente ninguém imaginou que o decote causaria tanta confusão. Mas se fosse algo previsto, a Fifa poderia ter pedido a ela que trocasse de roupa porque, afinal, é seu contratante. Ninguém mais teria esse direito.

Digo mais: se a Fifa quisesse enviar uma imagem extremamente formal da Copa no Brasil para o mundo, talvez uma jornalista tivesse sido contratada e não uma modelo. Vejo a Copa sendo divulgada como uma grande festa, onde turistas são convidados a visitar o país para se divertir, interagir com os brasileiros e compartilhar a felicidade que vem do meu povo. O Brasil não é um país de formalidades. Quem estiver chocado com o vestido da modelo não vai gostar nada do que vai ver.

Camelia Entekhabi-Fard, uma jornalista iraniana, publicou um artigo muito lúcido sobre a polêmica (em inglês). “Talvez se o sorteio ao vivo tivesse sido mantido no ar, os fãs apaixonados de futebol não teriam prestado tanta atenção nela", escreveu, referindo-se à modelo. Camelia completa dizendo que o que o regime iraniano acredita ser uma ameaça ao Irã “será uma preocupação real independentemente de quanta censura impuserem ou de quão fechadas as fronteiras estiverem” porque existe um medo de invasão cultural. Um iraniano, que eu considerava um amigo, me disse que o artigo de Camelia é muito fraco comparado a outros publicados pela mídia iraniana (e escritos em persa, língua que ele sabe que eu não entendo).

Essa polêmica toda apenas me confirma uma ideia: a tentativa de reforçar o poder do homem sobre a mulher, o que é contrário ao movimento pelos direitos da mulher. Alguns homens conversam sobre o episódio do vestido a partir de um ponto de vista puramente machista. Isso ficou ainda mais claro, quando ouvi que anti-feministas são homens que batem em mulher, proíbem-nas de estudar e tratam-nas como escravas. Hã??? Desculpe, mas isso não é ser anti-feminista; é ser criminoso e esse tipo de homem deve ir pra cadeia. Anti-feminista é aquele que não apoia os direitos de as mulheres tomarem suas próprias decisões.

Fernanda não deveria ter pedido desculpas porque não fez nada errado. E é curioso que um website de futebol persa tenha registrado vários comentários de iranianos criticando o próprio país num de seus fóruns. Há comentários como este: “Espero que ela, agora, vista algo que mostre ainda mais.. E isto tudo não é responsabilidade da RI, não foi Khamenei e seus companheiros atacando o Facebook de Lima, mas iranianos comuns.”

Leia mais sobre o que foi publicado fora do Brasil sobre essa polêmica (em inglês):
Opinião: Irã teme Fernanda Lima mais do que Netanyahu
Iranianos compartilham sua raiva, e desculpas, em relação a sorteio da Copa de 2014
#BBCtrending: Fernanda Lima e o vestido que chocou o Irã

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